O Que Sobrou Do Todo

CAPÍTULO 2 - O amor que dei e o amor que recebi

Sempre achei que amar era dar.
Dar tempo.
Dar atenção.
Dar presença, mesmo quando o mundo pedia ausência.
Dar o melhor de mim — mesmo nas temporadas em que eu próprio precisava de cuidados.

E dei.
Dei tanto que, por momentos, acreditei que isso bastaria para o amor ser seguro.
Que quando se dá sem reservas, o outro entende.
Que quando se entrega o coração com as duas mãos abertas, o outro cuida com a mesma delicadeza.

Mas amar não é uma matemática de equilíbrios perfeitos, é verdade.
Ainda assim, há coisas que não deviam precisar de ser explicadas:
o respeito,
a confiança,
o não levantar dúvidas onde elas não existem,
o não plantar suspeitas no peito de quem só quer construir.

Eu dei o meu amor como quem acende uma luz num quarto escuro.
Mas o amor que recebi às vezes chegava como sombra —
uma dúvida mal colocada,
um silêncio onde deveria haver acolhimento,
uma distância logo depois de um momento íntimo,
como se a vulnerabilidade despertasse medo em vez de aproximação.

E essa assimetria, por mais subtil que fosse, deixava marcas.
Não foram os grandes gestos que feriram —
foram as pequenas quebras,
as insinuações sem fundamento,
as perguntas que pareciam testes,
como se o amor que eu dava tivesse de ser provado todas as semanas.

Com o tempo, percebi que estava a amar por nós dois.
Que estava a segurar o peso da relação enquanto tentava manter a paz,
a harmonia,
a estabilidade emocional dos dois.

Mas amor não é um esforço solitário.
Amor não pode ser uma defesa constante,
uma justificação infinita,
uma vigilância emocional para evitar mais um conflito.

Amar é cuidar, sim —
mas quando o cuidado se transforma em auto-sacrifício silencioso,
já não se chama amor.
Chama-se perda de si mesmo.

E, no meio disto tudo, comecei a ver que talvez a pergunta não fosse
“Será que ele me ama?”
mas sim
“Será que o amor que ele me dá é suficiente para mim?”

O amor que dei foi inteiro, luminoso e verdadeiro.
O amor que recebi… às vezes foi, outras vezes não.
E talvez a coragem esteja em reconhecer que ambos são reais —
mas não têm, por si só, o mesmo peso.

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