O Que Sobrou Do Todo

CAPÍTULO 3 - A linha fina entre cuidar e perder-me

Há uma linha invisível que separa o cuidado do autoabandono.
É tão fina que, por vezes, só a vemos quando já a atravessámos.

Eu atravessei-a devagar.

Foi quando comecei a explicar-me por coisas que não fiz.
Foi quando aceitei desculpas que doíam mais do que o próprio erro.
Foi quando deixei de impor limites para evitar discussões.
Foi quando comecei a ter medo dos momentos que deveriam ser bonitos —
como se o afeto antecedesse uma acusação futura.

E o mais perigoso é que eu fazia isto sem perceber.
Achava que era maturidade.
Achava que era compreensão.
Achava que era assim que se evitavam conflitos.
Achava que amar era ser maior do que as feridas.

Mas não é.

Foi quando me vi a tolerar o intolerável que percebi que algo dentro de mim estava a desaparecer.
A minha paz.
A minha segurança.
A minha clareza.
O meu eu.

Estava sempre em modo de gestão emocional —
a tentar perceber o que dizer, como dizer,
de que forma evitar que um gesto simples fosse mal interpretado.
Estava sempre a vigiar a minha própria inocência como se precisasse de a provar.

E isto…
isto não é amor.
Isto é sobrevivência emocional.

A certa altura, percebi que já não estava a tentar salvar a relação.
Estava a tentar salvar-me dentro dela.

É duro admitir isto.
Duro porque amo.
Duro porque acredito no que vivemos,
no que construímos,
no que ainda podemos resolver.
Mas também duro porque, pela primeira vez,
consigo ver com clareza o preço que paguei cada vez que ignorei o desconforto.

Cuidar é bonito.
Cuidar é necessário.
Cuidar faz parte do amor.

Mas cuidar nunca pode significar perder-me.

E este capítulo, talvez mais do que os outros, não é sobre ele.
É sobre mim.
Sobre a parte de mim que finalmente abriu os olhos.
Sobre a parte de mim que percebeu que o amor só é bonito quando não nos obriga a desaparecer para caber.

A partir daqui, cada passo será novo.
Mais consciente.
Mais honesto.
Mais meu.

Porque antes de amar alguém,
tenho de aprender a não me abandonar.

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